Inteligência Artificial, um novo olheiro para talentos despercebidos no futebol
O brasileiro Léo Veiga temia que seu sonho de se tornar jogador de futebol fosse impossível. Quando todas as portas se fechavam, a inteligência artificial (IA) descobriu seu potencial e ele foi recrutado para as categorias de base de um clube italiano.
Com a promessa de "democratizar" o acesso ao futebol através da IA, empresas de tecnologia estão se abrindo ao mundo esportivo e apostando no Brasil, o mair produtor e exportador de atletas do mundo.
A suíça Footbao e a alemã CUJU, por exemplo, lançaram aplicativos gratuitos com os quais jovens jogadores carregam vídeos mostrando suas habilidades.
Suas ações são analisadas e pontuadas por sistemas de IA e encaminhadas a olheiros e clubes. Um desses jovens é Léo Veiga, meio-campista de 18 anos.
"Essa questão da IA (...) facilita muito. Isso é uma nova porta", diz ele à AFP da Itália.
Depois de jogar no Brusque, clube de Santa Catarina, onde nasceu, ele integrou no ano passado as categorias de base do Spezia, da Série B italiana.
Ele conheceu o app Footbao por um vídeo no YouTube que oferecia a quem tivesse as melhores pontuações a chance de treinar alguns dias com o Lecce, da Itália. Ele foi selecionado para o evento e um olheiro apostou nele.
"Falei: 'vou baixar o aplicativo, vou tentar, né? Se não der nada, beleza, já não tinha dado nada certo. Mas se acontecer alguma coisa, perfeito'", conta o atleta, que tem contrato com o Spezia até junho de 2027 e integra o time Sub-19 da equipe.
Footbao e CUJU têm objetivos semelhantes, mas metodologias diferentes: o primeiro trabalha com vídeos de jogos e treinos em que avalia os aspirantes a jogadores; o segundo, com gravações de exercícios sugeridos aos usuários.
- Dados confiáveis -
Cerca de 120.000 atletas já usaram o app Footbao, a maioria no Brasil.
"Provavelmente haja entre 14.000 e 15.000 com potencial para ir a clubes ou academias", diz à AFP Nick Rappolt, CEO da empresa fundada em 2023.
A companhia também está presente na Colômbia e na Argentina e planeja se expandir para outros países da América do Sul.
Segundo Rappolt, a IA pode "democratizar" o futebol, permitindo identificar talentos que estão fora do radar dos grandes centros de formação.
O app da CUJU, por sua vez, foi lançado no ano passado e já soma cerca de 160.000 downloads. "Os clubes profissionais têm enormes bancos de dados, mas, em geral, de jogadores que já foram observados. Não há dados confiáveis sobre o talento em fases iniciais", diz à AFP Sven Müller, diretor de marketing da plataforma.
O objetivo é transformar "vídeos simples gravados com um telefone" em "dados de desempenho confiáveis", acrescenta.
- Impulso feminino -
Marcela Geremias chuta uma bola repetidas vezes contra uma parede, um dos exercícios propostos e avaliados pela CUJU, focados em aspectos técnicos como controle de bola e velocidade.
Após usar o aplicativo, ela foi convidada para torneios de base organizados pela empresa diante de olheiros e chegou à categoria Sub-15 do Corinthians, referência do futebol feminino na América do Sul.
"Todos os exercícios melhoram muito a técnica" e "posso ser vista em qualquer lugar do mundo", comenta a jogadora.
O Brasil sediará a Copa do Mundo feminina em 2027, um evento que pode impulsionar a captação de jovens atletas.
Por sua vez, o Santos anunciou em dezembro um acordo com a Footbao para ampliar seu processo de recrutamento de atletas.
É um "caminho" para "expandir nossa busca por atletas em todo o território brasileiro", comentou o presidente do clube, Marcelo Teixeira.
As grandes promessas são recrutadas desde crianças, mas a IA pode dar um impulso a jogadores que passam despercebidos, concorda João Paulo Sampaio, coordenador das categorias de base do Palmeiras, onde foram formados jovens como Endrick e Estêvão.
Sampaio recebe "30, 40 vídeos por dia" dessas empresas que fazem "a primeira peneira". "Eu vejo (...) E tem gente que me interessa. Agora tem uma nova ferramenta. Eles me marcam nas redes sociais (...) para eu ver o vídeo. Aí a gente traz aqui", diz o coordenador à AFP, embora o clube paulista não trabalhe diretamente com tais companhias.
T.Moore--PI