Israel desloca milhares de palestinos de Hebron após ataque mortal
O Exército israelense deslocou cerca de 2 mil moradores de Hebron, na Cisjordânia ocupada, e continuava neste sábado (24) suas operações na região, um dia depois de um ataque que deixou dois soldados israelenses mortos.
A Autoridade Palestina pediu que a comunidade internacional pressionasse Israel para proteger os moradores, que relataram que os soldados anunciaram as evacuações por meio de megafones durante a noite, enquanto eles recolhiam o que podiam antes de partir.
“Cerca de 2 mil pessoas foram deslocadas”, afirmou o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, em entrevista à emissora pública Kan. “Não será permitido que retornem ao seu bairro até que tenhamos terminado de lidar com todas as questões relacionadas ao Hamas em Hebron”, acrescentou.
O Exército israelense afirmou que, entre sexta-feira e sábado, realizou operações em 40 áreas diferentes em toda a Cisjordânia.
Segundo o Exército, suas forças “capturaram cerca de 40 suspeitos, incluindo terroristas afiliados ao Hamas e a organizações terroristas jihadistas islâmicas, além de suspeitos envolvidos em incitação, perturbação da ordem pública e lançamento de pedras”.
O Hamas, embora não tenha reivindicado a autoria do ataque, comemorou o atentado de sexta-feira e convocou os palestinos a realizar novas ações.
As famílias palestinas foram obrigadas a deixar suas casas em Hebron, a maior cidade do território palestino ocupado desde 1967, poucos dias antes de eleições legislativas que prometem ser bastante disputadas para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O líder israelense anunciou na sexta-feira uma importante operação militar na Cisjordânia, poucas horas depois do ataque realizado por dois palestinos contra um posto de controle perto de Hebron, uma cidade particularmente sensível, onde centenas de colonos israelenses vivem em meio à população palestina.
No bairro de Ein Dir Baha, situado entre duas colinas, vários edifícios foram marcados com uma cruz para indicar que haviam sido evacuados, constataram jornalistas da AFP.
— Duas horas para partir —
As ruas estão desertas. Não há moradores do lado de fora, e apenas veículos do Exército israelense circulam pela região, onde as forças militares estão mobilizadas em grande número. Em uma casa situada em uma colina, uma bandeira israelense tremula.
Higazi Shawer al Tamimi, comerciante de 70 anos, contou que foi acordado por soldados israelenses na madrugada. Assim como seus vizinhos, recebeu a ordem de deixar a casa e teve duas horas para preparar algumas malas, reunir documentos e encontrar um lugar para ficar.
Tudo isso acontece “porque Benjamin Netanyahu quer vencer” as eleições com o “sangue dos palestinos”, denunciou. “Mas não iremos a lugar nenhum.”
Um terço da cidade foi afetado até o momento pela operação, estimou o governador de Hebron, Khaled Dudin, em entrevista à AFP.
“Começaram pelo bairro de onde os atacantes eram originários, mas não temos nenhuma garantia de que a operação não se expandirá”, acrescentou, denunciando uma “punição coletiva” contra civis inocentes.
O governador calcula que 150 famílias foram deslocadas, embora o número esteja mais próximo de 250, segundo o prefeito de Hebron, Yusef al Jababari, e o ativista local Isa Amro.
“Vamos fornecer abrigo e ajuda a essas pessoas”, garantiu o prefeito à AFP.
O Exército israelense afirmou estar realizando “buscas precisas, seletivas e minuciosas” no bairro de origem dos dois atacantes, mortos após o ataque. Segundo a mesma fonte, a operação poderá durar vários dias, como costuma ocorrer após atentados palestinos.
Mas Netanyahu, que joga sua sobrevivência política nas eleições de terça-feira, afirmou estar preparando uma operação de maior envergadura, “como não se vê desde a Guerra dos Seis Dias”, em 1967.
— Desmantelar a Autoridade Palestina —
Seu ministro da Segurança Nacional, o ultradireitista Itamar Ben Gvir, também candidato nas eleições legislativas, voltou a pedir na sexta-feira o desmantelamento da Autoridade Palestina, embora não exista nenhum indício que a vincule ao ataque.
Em entrevista ao canal I24, o primeiro-ministro israelense falou sobre uma “grande surpresa em preparação” para a Autoridade Palestina.
“Neutralizarei essa ameaça por meios que prefiro não detalhar neste momento”, afirmou.
Isso ocorre em um contexto de crescente tensão na Cisjordânia, onde colonos radicais - que, segundo seus críticos, se beneficiam da tolerância e até mesmo do apoio do governo israelense - intensificam as incursões cada vez mais violentas contra moradores palestinos.
A organização israelense de direitos humanos Yesh Din contabilizou 672 incidentes nos últimos 26 dias, metade deles durante a colheita de azeitonas dos palestinos, período tradicionalmente marcado por episódios de violência protagonizados por colonos.
As pesquisas mais recentes apontam um empate técnico entre Netanyahu e seu principal adversário, Gadi Eisenkot, ex-chefe do Exército e candidato de centro, que também se opõe à criação de um Estado palestino, mas prometeu agir contra a violência dos colonos.
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M.Johnson--PI