França anuncia 'toques de recolher' para impedir distúrbios e saques
O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, anunciou nesta segunda-feira (19) "toques de recolher" em vários pontos do país, no momento em que o governo está sob pressão para acabar com os distúrbios e saques registrados desde o fim de semana.
Uma grande manifestação convocada no sábado (17) contra o elevado custo de vida terminou com cenas de violência e saques nas principais cidades da França, imagens que repercutiram em todo o mundo.
Centenas de lojas saqueadas, a prefeitura de Limoges incendiada, carros queimados, confrontos entre manifestantes e as forças de segurança: as autoridades descreveram um caos "sem precedentes", que prosseguiu durante a noite de domingo.
O presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu nesta segunda-feira "falhas" na gestão policial dos distúrbios e pediu "novos modos operacionais" para "acabar com os fenômenos de barricadas e saques".
Após uma reunião de crise, seu primeiro-ministro rejeitou impor um estado de emergência e defendeu "toques de recolher parciais". A lista dos locais afetados deve ser anunciada durante a tarde.
Algumas medidas já foram anunciadas. Em Marselha, foram proibidas manifestações entre 12h00 e 20h00 desta segunda-feira, e a cidade de Denain, perto da fronteira com a Bélgica, decretou um toque de recolher noturno até domingo.
Cidades da Bélgica e da Itália também registraram, no fim de semana, protestos contra o encarecimento do custo de vida, que terminaram em confrontos entre a polícia e manifestantes, além de saques.
"Os incêndios criminosos, os saques e os ataques contra indivíduos ou prédios públicos são inaceitáveis", declarou o porta-voz da Comissão Europeia, Markus Lammert, que conclamou a França a "proteger" o direito de protesto pacífico.
- "O poder desertou" -
A seis meses da eleição presidencial, na qual Macron não poderá ser candidato, as cenas do fim de semana deixaram o governo contra a parede, acusado de não ter antecipado o risco de distúrbios, nem de responder às reivindicações dos manifestantes.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu uma perda de controle da polícia em "algumas cidades" durante os protestos, que resultaram em mais de 2.500 detenções e quase 1.000 agentes feridos.
"O poder desertou por completo", criticou o presidente do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), Jordan Bardella, cuja candidata à presidência, Marine Le Pen, lidera as pesquisas.
"Se há vândalos, é porque há movimentos sociais e porque existe uma forma de degradação do movimento social, que é organizada pelo governo", lamentou o prefeito de Paris, o socialista Emmanuel Grégoire.
Em um aguardado discurso exibido na televisão durante a noite de domingo, assistido por 16,7 milhões de telespectadores, Macron prometeu firmeza e atribuiu os ataques a "pequenos grupos de extrema esquerda" e a "criminosos".
Mas ele não fez nenhum anúncio para amenizar o mal-estar social, embora tenha mantido uma viagem ao Oriente Médio, com o objetivo de assegurar volumes de petróleo e diesel para reduzir os preços no país.
O governo calculou em "pelo menos 3.000" os estabelecimentos comerciais afetados pelos saques e anunciou medidas de desemprego parcial a partir de terça-feira e um "fundo de apoio específico" para os comerciantes.
- "Prudência" -
Como prova de que a situação continua tensa, manifestantes bloquearam nesta segunda-feira o acesso ao Museu do Louvre, em apoio ao movimento estudantil que reivindica melhores condições nos colégios desde o fim de setembro.
E o movimento dos coletes amarelos, que protagonizou importantes protestos sociais em 2018 e 2019, anunciou novas manifestações para o próximo sábado.
A situação é acompanhada com preocupação fora da França. A vizinha Alemanha pediu "prudência" a seus cidadãos, já que "não se podem excluir (...) novos distúrbios nos próximos dias".
Nos últimos meses conturbados de sua presidência, Macron e seu governo também enfrentam uma pressão no cenário internacional devido ao elevado nível da dívida, que se agravou nesta segunda-feira.
O rendimento da dívida soberana a 10 anos subia nos mercados, provocando novos temores, no momento em que o governo, em minoria, busca aprovar no Parlamento um forte ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (60,7 bilhões de dólares, 306 bilhões de reais) em 2027.
"Se estes distúrbios reforçarem o apoio a Marine Le Pen, hostil à União Europeia, poderemos assistir a novas desvalorizações da moeda única", advertiu Kathleen Brooks, analista da XTB.
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M.Johnson--PI