Kenneth Branagh expõe cicatrizes da guerra do Iraque em 'Atonement'
O roteirista Reed Van Dyk folheava uma revista em um domingo de 2012 quando se deparou com um artigo sobre o custo humano da guerra. A história o comoveu tanto que ele soube que um dia a levaria para as telas de cinema.
A oportunidade para concretizar uma produção de tamanha magnitude surgiu depois que seu curta-metragem "DeKalb Elementary" conquistou a crítica e foi indicado ao Oscar em 2018.
Foi então que ele começou a trabalhar em "Atonement", o filme inspirado no artigo homônimo publicado na revista The New Yorker, que estreia nos cinemas dos Estados Unidos nesta sexta-feira (2).
O longa-metragem começa em 2003, quando as vidas de uma família iraquiana e de um veterano de guerra americano se entrelaçam tragicamente em uma Bagdá em chamas.
Mariam Khachaturian (interpretada por Hiam Abbass) e sua família tentam chegar em casa quando os veículos em que estão são atacados por uma unidade de fuzileiros navais que acredita estar sob ameaça. Três passageiros morrem no incidente, incluindo o marido de Mariam.
Com o tempo, a viúva tenta deixar a guerra para trás e se muda para os Estados Unidos com a filha.
O fuzileiro naval Lou D’Alessandro (Boyd Holbrook) também quer seguir em frente, mas as consequências do ocorrido continuam a atormentá-lo. A única forma que ele acredita ter de exorcizar seus demônios é procurar Mariam.
"Fui profundamente tocado pelo texto, pela história e por todos esses personagens cujas vidas se cruzaram de maneira muito trágica e que voltam a se encontrar uma década depois", disse Van Dyk em entrevista à AFP.
Lou e Mariam sentam-se frente a frente na Califórnia com mediação de Michael Reid (Kenneth Branagh), um jornalista que havia entrevistado ambos sobre suas experiências na guerra.
"Fui muito atraído por essa complexidade e também pela ideia de ser testemunha, ao longo dos anos, desse encontro extraordinário entre duas pessoas que tentam assimilar uma dor e perdas imensas, embora de natureza muito distinta", comentou Branagh à AFP durante o Festival de Cinema de Toronto.
Também há uma "enorme força dramática de algo tão difícil quanto voltar a se encontrar para sentir, falar, esquecer e perdoar", acrescentou o ator, cujo personagem é inspirado no jornalista Dexter Filkins, autor do artigo original.
- "Oportunidade inusitada" -
"Atonement" chega aos cinemas poucos dias depois de os Estados Unidos encerrarem oficialmente sua missão de décadas no Iraque, mas com o país novamente em guerra, desta vez com o Irã.
"Senti a necessidade de escrever sobre estas três pessoas e explorar suas histórias, embora naquela época não fosse um assunto que ocupasse as manchetes", disse Van Dyk.
"E aqui estamos. Enquanto fazíamos o filme, o mundo retrocedeu e a guerra voltou em toda parte. E isso, de alguma maneira, dá um novo contexto a todo o nosso trabalho. Acabou se tornando uma oportunidade inusitada", acrescentou.
Para Holbrook, interpretar o atormentado Lou foi "uma experiência fantástica", mas também intimidante. "Foi algo que eu tive de encontrar e realmente descobrir dentro de mim: a empatia e a coragem que Lou tinha", afirmou o ator.
Abbass, por sua vez, conta que assumiu o papel com o desejo de "fazer justiça" a Mariam.
"Queria me colocar no lugar dela e gritar o que ela sentia, a minha raiva de que algo assim pudesse acontecer", contou a atriz, que espera que o filme leve o público a refletir sobre as consequências da guerra.
W.Miller--PI